No meu primeiro apartamento, o barulho do vizinho de cima começava sempre perto das onze da noite, no mesmo ponto do teto: um tum, tum, tum que saía da cozinha dele e ia até o quarto, que ficava exatamente em cima do meu. Não era festa nem música. Era alguém de chinelo duro andando no porcelanato, e aquilo atravessava a laje como se ele estivesse dentro do meu quarto.

Levei meses para entender que o problema não estava no meu teto, e que nenhuma placa colada lá em cima ia resolver. Neste guia explico por que o som de cima chega tão forte, como descobrir que tipo de barulho é, o que o vizinho pode mudar do lado dele e o que ainda dá para fazer do seu, inclusive em apartamento alugado.

Por que o som de cima chega tão forte

Quase todo barulho que desce do andar de cima é ruído de impacto. O pé, o salto ou a perna da cadeira batem direto no piso, o piso está colado no contrapiso, e o contrapiso está preso na laje. A batida vira vibração, a laje inteira vibra como a pele de um tambor e devolve esse som para o seu cômodo.

É diferente do barulho aéreo, como conversa e TV, que viaja pelo ar e perde força a cada parede. Por isso muita gente não escuta a TV do vizinho de cima, mas escuta cada passo dele.

Três detalhes pioram o quadro na maioria dos prédios:

Que barulho é esse? Um guia rápido pelo som

Antes de pedir qualquer coisa, vale dar nome ao que você ouve. Cada tipo de barulho tem uma origem e uma solução diferente, e confundir os dois é o jeito mais rápido de gastar dinheiro à toa.

O que você ouve O que costuma ser Onde se resolve
Tum grave e ritmado, atravessando o apartamento Passos pesados, de calcanhar, em piso duro Tapete no trajeto, calçado macio, manta sob o piso numa reforma
Toc seco e agudo Salto, tamanco ou chinelo de sola dura Trocar o calçado dentro de casa, tapete
Arrasto curto ou rangido Cadeiras e móveis sem feltro Feltro nos pés dos móveis
Batidas soltas e correria Criança brincando, bola, pulos Tapete emborrachado na área de brincar, combinar horários
Zumbido ou vibração contínua Máquina de lavar centrifugando, esteira, bicicleta ergométrica Base antivibração ou placa de borracha sob o aparelho
Água correndo ou descarga Tubulação passando pelo seu teto ou parede Síndico e manutenção hidráulica, não é caso de acústica
Voz e música nítidas Barulho aéreo, não de impacto Vedação de frestas e janelas, conversa sobre volume

Se o seu caso é a última linha, o caminho é outro, e eu explico em como descobrir por onde o som do vizinho entra na sua casa.

Confirme de onde vem o barulho

Em prédio, o som engana. Uma batida no apartamento vizinho ao de cima pode parecer vir do seu teto, porque a vibração caminha pela estrutura e aparece onde a laje vibra mais. Já vi gente reclamar com o morador errado por causa disso, e aí a conversa começa torta.

O teste mais seguro é combinado com o vizinho:

  1. Anote por alguns dias os horários em que o barulho aparece e em que cômodo ele parece mais forte.
  2. Converse com o vizinho que você suspeita e proponha um teste de cinco minutos: alguém da casa dele anda de calçado no trajeto de sempre enquanto você escuta embaixo.
  3. Se der, troquem de lugar: ele desce e escuta no seu apartamento enquanto alguém da família dele caminha lá em cima.
  4. Se o som bater com o que você ouve à noite, está confirmado. Se não bater, o barulho vem de outra unidade, e o síndico ajuda a descobrir qual.
Celular gravando o barulho do vizinho de cima na mesa de cabeceira de um quarto de apartamento à noite

A troca de lugar é o que mais resolve. Quem mora em cima quase nunca escuta o próprio passo, porque do lado dele o piso parece silencioso. Quando ouve o que o chinelo dele vira aqui embaixo, a conversa muda de tom.

O que resolve de verdade: mudanças no apartamento de cima

O ruído de impacto se resolve muito melhor onde ele nasce. Amortecer a batida antes de ela chegar à laje custa pouco. Barrar a vibração depois que ela já entrou na estrutura custa caro e resolve só em parte.

O que o vizinho de cima pode fazer, do mais barato para o mais caro:

Por isso pedir “faça menos barulho” costuma dar em nada, e pedir “coloca feltro nas cadeiras e um tapete no corredor” costuma funcionar. O primeiro pedido soa como acusação. O segundo é uma tarefa com começo e fim.

Como pedir sem virar briga

Uma vez levei um pacote de feltro adesivo junto com a conversa. Custou menos que um lanche, mostrou boa vontade e deixou claro o que eu estava pedindo. O vizinho colou o feltro no mesmo dia e comprou o tapete do corredor na semana seguinte.

Se a conversa não pegar, escreva. Deixei três modelos prontos, do cordial ao comunicado ao síndico, em carta para vizinho barulhento. E se nem isso resolver, o passo a passo com síndico, notificação e fiscalização está no guia de vizinho barulhento: o que fazer, do acordo à lei do silêncio.

Vale saber que o direito ao sossego não é só de quem é dono. O artigo 1.277 do Código Civil garante ao proprietário ou ao possuidor, o que inclui o inquilino, o direito de fazer cessar as interferências vindas da propriedade vizinha que prejudiquem o sossego de quem mora ali. Morar de aluguel não tira de você o direito de reclamar.

O que dá para fazer do seu lado

Do seu lado, existe uma obra que ajuda em parte, algumas soluções que não funcionam e alguns ajustes que diminuem o incômodo sem obra nenhuma.

Forro desacoplado: a única obra que ajuda

Um forro de drywall ou gesso pendurado por tirantes com amortecedores de borracha, com lã mineral no vão entre ele e a laje, cria uma segunda barreira que não encosta rígida na estrutura. É o mesmo princípio de massa, ar e massa da parede de drywall acústica, só que no teto.

Ele reduz bem os estalos e parte do tum grave. Não zera, porque a vibração continua descendo pelas paredes e pilares. Conte também com a perda de alguns centímetros de pé-direito e com luminárias que precisam mudar de lugar.

No aluguel, o forro depende do dono

A Lei do Inquilinato, no artigo 23, obriga o inquilino a devolver o imóvel no estado em que o recebeu e a não modificar a forma interna sem consentimento prévio e por escrito do locador. Forro é obra, então só com autorização por escrito, combinando antes se ele fica ou sai no fim do contrato. Tem proprietário que aceita dividir o custo, porque o forro fica no imóvel.

O que não adianta no teto

Sem obra: diminuir o incômodo

Quando obra não é possível, dá para reduzir o quanto o barulho atrapalha:

Outras saídas para quem mora em prédio, sem furar parede e sem perder a caução, estão reunidas em acústica para apartamento e aluguel.

Prédio novo: quando o problema é da construção

Se o prédio é novo e o passo do vizinho chega forte mesmo com tapete e calçado macio, o problema pode estar no projeto. A NBR 15575, norma de desempenho de edificações habitacionais, vale para prédios com projeto protocolado a partir de julho de 2013 e fixa um limite de ruído de impacto entre apartamentos de andares diferentes. O nível mínimo aceita até 80 dB na medição padronizada, e os níveis intermediário e superior pedem no máximo 65 dB e 55 dB. Aqui, quanto menor o número, mais silencioso.

Medidor de nível sonoro em tripé num apartamento novo vazio, ensaio de ruído de impacto entre andares

Esse número só sai de um ensaio feito por profissional, com uma máquina de impacto normalizada batendo no piso de cima enquanto se mede embaixo. App de celular não serve para isso. Se o laudo mostrar que o piso não atende à norma, a conversa deixa de ser sobre o comportamento do vizinho e passa a ser sobre o desempenho da obra, e o síndico leva o caso à construtora.

Aviso: isto é orientação geral, não aconselhamento jurídico nem laudo técnico. Prazos de garantia e responsabilidades dependem de cada caso, então vale consultar um profissional antes de acionar a construtora.

Como registrar o barulho

Se o caso chegar ao síndico ou à construtora, registro organizado pesa mais do que memória:

  1. Diário de ocorrências: data, hora de início e fim, tipo de som e cômodo onde você ouviu.
  2. Vídeo com áudio: grave com o celular apontado para o teto, com o relógio aparecendo na tela ou falando a hora em voz alta.
  3. Cuidado com o app de decibelímetro: o microfone do celular não é calibrado. O número serve para você comparar um dia com o outro, não como prova técnica.

Perguntas frequentes sobre barulho do vizinho de cima

Tapete resolve o barulho de passos do vizinho de cima?

Resolve boa parte do estalo de salto e reduz o tum dos passos, principalmente se tiver base emborrachada e ficar no trajeto mais usado. Não elimina o grave de quem pisa forte, que só uma manta sob o piso resolve de fato.

Forro de gesso resolve o barulho do vizinho de cima?

Forro comum, preso direto na laje, quase não ajuda. O que reduz é o forro desacoplado, com tirantes com amortecedor e lã mineral no vão, e mesmo ele diminui em vez de eliminar, porque parte da vibração desce pelas paredes.

Existe horário em que o vizinho de cima pode fazer barulho?

Não existe horário liberado para incomodar. O regimento do condomínio costuma definir um horário de silêncio mais rígido à noite, mas o direito ao sossego vale o dia inteiro.

Inquilino pode reclamar do vizinho de cima?

Pode. O Código Civil garante o direito ao sossego a quem mora no imóvel, seja dono ou inquilino. O caminho é o mesmo: conversa, carta e síndico.

Minha recomendação: confirme primeiro de onde vem o som, depois leve ao vizinho de cima um pedido concreto, com feltro nas cadeiras e tapete no corredor. Só pense em forro se isso não bastar, e se o prédio for novo, pense também em laudo. Na maioria dos casos que acompanhei, o que o vizinho muda do lado dele resolve mais do que qualquer obra no seu teto.

Sobre o autor: Valton Aparecido Lopes Bernardo grava e produz em casa, já dividiu laje com vizinho de chinelo duro, e escreve sobre acústica prática para quem mora em prédio.